Embora muito bem organizada, essa aula é muito redundante com a aula 28 do módulo anterior, portanto não há necessidade de discorrer novamente sobre os aspectos básicos do assunto e é mais valioso partir para uma reflexão sobre como este fenômeno é encarado na sociedade brasileira.
O bullying não é um fato recente, ele é histórico e decorre de um acirramento perigoso do estranhamento entre pessoas de diferentes etnias, valores culturais, religiosos ou grupos econômicos. É preciso colocar que a reação de estranhamento é normal, o choque de identidades é inevitável e ao ir para uma nova escola, a criança vai se deparar com outras com características que ela nem imaginava existir.
Paralelos históricos seriam o encontro entre europeus com povos nativos da América, Ásia e África na época das grandes navegações. Naquela época não existia a noção de democracia e de respeito e por isso, o encontro se desenvolveu com violência e dominação. Não seria isso, em grande escala, a mesma reação entre os jovens que discriminam e praticam bullying com aqueles que consideram diferentes?
A escola então tem o papel de propagar valores de respeito às diferenças e a pluralidade. Deve ensinar que é mais enriquecedor conhecer várias narrativas do que impor a sua verdade.
Considerando que há algumas décadas não havia qualquer preocupação com o bullying por parte das autoridades e dos profissionais da educação, podemos dizer que o Brasil vem evoluindo neste aspecto.
Tomando um exemplo muito significativo na vida do adolescente que está se descobrindo, hoje é perceptível que o jovem que não é heterossexual se sente mais à vontade para expor sua condição aos colegas, muito embora não possamos fechar os olhos para casos de violência que persistem, mas que cada vez mais são enxergados como abomináveis pelo senso comum.
A escola, deve agora, saber separar tecnicamente o que é o bullying, para que possa tratar de casos sérios sem que se torne excessivamente tolhedora do caráter jovial e espontâneo da criança e do adolescente. O que isso quer dizer?
Brincadeiras, às vezes até de mal gosto, provocações e rivalidade provavelmente sempre existirão, claro que dependendo do teor, devem ser passíveis de advertência ou punição para não desencadear um caso de violência. No entanto, o bullying, estritamente falando, é mais complexo do que uma provocação isolada ou uma brincadeira de mal gosto.
Para ser considerado bullying, é necessário que seja praticado contra alguém indefeso, seja por fraqueza física, seja moralmente, por não ter o apoio dos outros colegas e é praticado de forma contínua, causando até um trauma ou deixando a criança complexada. Este é o caso que a escola deve tratar com a maior preocupação. Não deve o professor ser testemunha inerte e nem a direção entender que há apenas um desentendimento ou "uma briguinha" que se resolve chamando os pais e conversando uma vez.
Quando se chegar a conclusão de que se trata de bullying, o setor psico-pedagógico da escola deve entrar em ação trabalhando tanto com o lado agressor como com a vítima. Seu discurso, com o primeiro, deve ser de propagar o respeito, o sentimento de culpa e conscientização e com o segundo, trabalhar sua auto-estima, sua confiança.
Não acredito em soluções artificiais tão comuns como obrigar o agressor a pedir desculpas, independente de sua vontade, ou de forçar a situação, obrigando agressor e vítima a fazerem atividades no mesmo grupo ou dupla. É uma atitude inconsequente, que pode tanto dar certo, quanto acirrar ainda mais o estranhamento e levar a uma intensidade maior de violência.
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